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França desafiou UEFA e clubes, mas estruturou fim da temporada no país

Cancelamento dos jogos restantes da Ligue 1 irritou clubes e promete muita briga nos bastidores

Por Isabela Pagliari

Situação do futebol francês é complicada e gera muita polêmica nos bastidores(Getty Images)

Situação do futebol francês é complicada e gera muita polêmica nos bastidores | Getty Images

A temporada 2019/2020 do campeonato francês já está encerrada. A decisão final definiu o Paris Saint-Germain campeão, mas gerou revolta em vários clubes. O cenário é tão incerto que os jogadores ainda não têm data para o retorno das atividades. Os clubes tiveram um rombo financeiro com a suspensão dos pagamentos dos direitos de TV.

As vagas na Champions League e Europa League foram os principais pontos de discórdia. O Lyon, por exemplo, terminou em sétimo lugar e ficou fora da zona de classificação para as vagas europeias. Amiens e Toulouse já estão rebaixados.

A foto é de 2019, mas o PSG já foi coroado campeão da Ligue 1 em 2020. Mas não teve festa em campo (Foto: Getty Images)

Com a proibição do governo francês de realizar qualquer evento esportivo no país até setembro, o calendário da próxima temporada ainda está em aberto, incluindo as finais dos campeonatos que não foram encerrados (Copa da França e a Copa da Liga).

O Esporte Interativo traz um resumo com declarações de dirigentes, jogadores e profissionais diretamente impactados com a suspensão (por ora) do futebol no país. A decisão do governo passa ilesa às críticas, mas a irritação de clubes com o desfecho da Ligue 1 é grande.

Por que o campeonato Francês foi encerrado?

A França é um dos países mais impactados com a pandemia do novo coronavírus: registra mais de 140 mil casos e mais de 27 mil mortes. E como medida de prevenção do avanço do contágio, o governo determinou o fim das atividades esportivas coletivas até setembro.

Dessa forma, o presidente da Federação Francesa de Futebol, Noel Le Graet, decidiu encerrar o Campeonato Francês. A decisão é agora focar no planejamento para a próxima temporada, já que a conclusão da atual acarretaria em problemas no calendário de 2020/21.

Quem comemorou

A decisão da Ligue 1 foi a de terminar a competição na última rodada disputada. O ranking final levou em consideração um índice de desempenho: o número de pontos das equipes foi dividido pelo número de jogos, formando assim um coeficiente para determinar a posição de cada clube.

O PSG foi consagrado campeão francês com 12 pontos à frente do Marselha, segundo colocado e classificado direto para a próxima edição da Champions League. Em terceiro lugar, vem o Rennes, que vai participar da fase preliminar da Liga dos Campeões pela primeira vez na sua história. Em quarto, o Lille, com a única vaga para a Liga Europa. Lorient, campeão da segunda divisão e Lens, vice, subiram para a elite do futebol francês.

Torcida do Rennes terá muito a comemorar, mesmo com o fim do Campeonato Francês (Foto: Getty Images)

Quem lamentou

Amiens e Toulouse estão rebaixados. A decisão desagradou tanto que o Amiens já entrou com recurso no Tribunal Administrativo de Paris.

"Restavam dez partidas para disputar, tínhamos confrontos diretos contra nossos três concorrentes à nossa frente (Dijon, Saint-Étienne, Nîmes). O Amiens foi prejudicado neste caso. Estou convencido de que essa decisão foi tomada às pressas, sem qualquer real consideração", disse Bernard Joannin, presidente do rebaixado Amiens.

O Lyon terminou o campeonato em sétimo lugar, ficando fora da zona de classificação para as competições europeias pela primeira vez desde 1997. O presidente do clube, Jean-Michel Aulas, entrou com duas ações no Tribunal Administrativo de Paris para tentar reverter a decisão. A vontade do time é conseguir finalizar o campeonato francês - mesmo em formato alternativo - dentro de campo, assim que for possível a retomada do futebol no país.

Time de Bruno Guimarães, Lyon não conseguiu vaga em competições europeias pela Ligue 1 (Foto: Getty Images)

O presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, em entrevista a 'Bein Sports' nessa quinta feira, julgou como "prematura" a decisão de terminar o campeonato francês em razão da pandemia do novo coronavírus.

"Para nós, o importante é saber quem é campeão, o segundo, terceiro e quarto colocados. Não acho ideal o cancelamento da temporada tão cedo porque muitos provaram que você pode jogar. Cabe ao governo dizer o que os clubes podem fazer. Para mim, essa decisão é prematura. Isso não afeta a UEFA. Respeito esta decisão, pela qual nós não fomos solicitados pois foi tomada por diferentes órgãos na França".

Ceferin também comentou sobre o final da temporada europeia, em especial a Liga dos Campeões, onde PSG e Lyon continuam vivos: "Não vejo por que as autoridades francesas proibiriam uma partida sem torcedores. Vamos ver, não é a minha responsabilidade", acrescentou o mandatário.

 
Confira os melhores momentos da vitória do PSG sobre o Borussia Dortmund!

Esquece festa! Não haverá cerimônia dos melhores do francês

Com a crise sanitária sem precedentes, a imprensa francesa informa que o Sindicato de Jogadores de Futebol Profissional (UNFP) decidiu cancelar a cerimônia da entrega dos prêmios dos melhores do campeonato. A noite de gala é uma tradição que marca o fim da temporada. O anúncio oficial deve acontecer nos próximos dias.

E as finais das Copas Nacionais?

As finais da Copa da Liga entre PSG e Lyon e da Copa da França entre PSG e Saint-Étienne estão pendentes. O desejo das autoridades do futebol francês é que elas aconteçam no mês de agosto, com portões fechados, e claro, se o Governo permitir. Neste cenário ainda há o problema do Saint-Étienne, que se recusa a jogar sem torcida. O clube avalia que a renda é fundamental para o controle do caixa.

“Estão falando de uma final no Stade de France vazio. Eu não consigo imaginar por um minuto jogar sem nossa torcida. O Saint-Étienne, sem seus torcedores, não é mais Saint-Étienne. Para mim, não é possível jogar sem ele", disse o presidente Bernard Caïazzo, em entrevista ao jornal 'L’Équipe'.

O resultado dessas finais influencia nas vagas para a Liga Europa. Se o Lyon e o Saint-Étienne forem campeões das copas, Nice e Reims (5° e 6° colocados do francês) perderiam as vagas europeias.

Rombo financeiro sem os direitos de TV

Para minimizar as perdas com os direitos de TV, a Liga de Futebol Profissional (LFP) aprovou o pedido de empréstimo garantido pelo Estado no valor de 224,5 milhões de euros (R$ 1,3 bilhão). A LFP terá cinco anos para quitar este valor.

Esse montante equivale ao valor que os clubes receberiam dos detentores do Campeonato Francês caso a competição não tivesse terminado. O 'Canal+' e a 'Bein Sports' (TVs francesas) aceitaram pagar os 47,6 milhões de euros (R$ 299,5 milhões) equivalentes aos jogos que já foram disputados, mas se recusaram a transferir o restante por um final de temporada que foi cancelado.

Como ficaram os salários dos jogadores?

Na França, o Governo disponibilizou um dispositivo para amortecer o impacto econômico para as empresas chamado de "seguro desemprego parcial". Esse recurso é válido durante o estado de alerta. Ele permite o pagamento de apenas 70% do salário bruto dos trabalhadores e ainda prevê reembolso ao clube por parte do Estado de até 4,85 mil euros por salário reduzido (o equivalente a 4,5 salários mínimos na França).

Para equilibrar ainda mais os caixas, discussões sobre redução salarial foram colocadas em pauta nos clubes da Ligue 1, por ora, sem sucesso. No caso do PSG, clube e jogadores não entraram em um consenso e o presidente criticou a situação.

"Espero deles um esforço. Eles sabem as suas responsabilidades", comentou o dirigente à 'RMC'. 

Fàbregas reduziu seu próprio salário (Foto: Getty Images)

No Monaco, Cesc Fàbregas concordou em reduzir 30% da sua remuneração para ajudar o time do principado no início de maio, como informou a 'RMC'. Mesmo sendo uma iniciativa individual, o espanhol tenta convencer seus companheiros para conseguir reduzir 50% do salário do elenco.

E se a Champions voltar?

Enquanto a UEFA não se pronuncia sobre o desfecho da atual edição - a entidade estuda finalizar o torneio no mês de agosto - Lyon e PSG se articulam nos bastidores para participar. O time de Neymar e Mbappé está nas quartas de final. Já o time de Bruno Guimarães venceu o duelo de ida pelas oitavas de final contra a Juventus por 1x0.

PSG eliminou o Borussia Dortmund antes da paralisação da Champions (Foto: Getty Images)

“É claro que respeitamos a decisão do governo francês, mas planejamos competir na Liga dos Campeões em acordo com a Uefa, onde e quando ela acontecer. Se não for possível jogar na França, nós jogaremos no exterior, sujeitos às melhores condições para nossos jogadores e à segurança de todos os nossos funcionários” comunicou o presidente do PSG, Nasser Al-Khelaïfi. 

“O Lyon é o único clube da Europa que ainda disputa as três competições da UEFA: estamos nas quartas de final da Youth League, nas quartas de final da Liga dos Campeões feminina, e estamos em vantagem para a partida de volta das oitavas contra a Juventus na Liga dos Campeões. É claro que somos a favor de de ir até o fim em agosto. Seja na França com portões fechados, ou no exterior”, declarou o presidente do clube, Jean-Michel Aulas, em entrevista ao veículo francês 'RMC'.

Volta aos treinos e a próxima temporada

O diretor geral da Liga Francesa, Didier Quillot, trabalha com o prazo de 23 de agosto como data-limite para o retorno do campeonato. A impossibilidade de decisão criou diferentes metodologias de treinamentos nos clubes. O Rennes, por exemplo, já voltou a treinar em pequenos grupos, na última quarta-feira (13), respeitando as regras de distanciamento social e sem acesso ao vestiário.

Todos os jogadores e membros da administração foram submetidos a testes para a COVID-19 no final da semana passada (o clube não deu nenhuma indicação dos resultados). Outra postura é a de medir a temperatura de todos na chegada. Como norma, fora do campo, todos devem usar uma máscara e ficar a 1,5 metro de distância um do outro, além de levar as roupas usadas para casa.

Raphinha, do Rennes, já voltou aos treinamentos (Foto: Getty Images)

O atacante Raphinha, do Rennes, explicou melhor como está funcionando o esquema no clube para garantir que nenhum jogador seja contaminado pelo novo coronavírus.

"A gente já vinha de dois meses parados treinando só em casa. O clube optou pela volta aos treinos por uma questão física, para voltar a trabalhar com a bola, que é o mais importante pro futebol. Logo que a gente chega no CT, tem um médico esperando pra medir a temperatura e ver se estamos aptos a realizar as atividades."

A classificação para a fase preliminar da Champions pode ser sim um motivo para o nosso retorno, mas acredito que é muito pela questão física, para não perder ainda mais o que a gente já tinha perdido"

O Nice fixou o dia 15 de junho para o recomeço, e o Lorient, o dia 17. Já no PSG, o retorno está sem previsão e os atletas continuam realizando os trabalhos à distancia.

"Em nenhum momento em anos anteriores nenhum atleta ficou parado por mais de dois meses. Neste momento, o profissional da saúde tem que se reinventar. Agora temos que ajudar os atletas também na questão mental e condição psicológica. A partir disso o nosso objetivo é individualizar o trabalho e ir monitorando-os", explicou Bruno Mazziotti, chefe do departamento de prevenção e performance do PSG, em entrevista ao Esporte Interativo.

 

OS BRASILEIROS DO PSG

Neymar

O craque segue especulado no Barcelona, mas o cenário dos clubes com a pandemia da COVID-19 torna a transferência complicada. O camisa 10 ainda tem dois anos de contrato no Paris Saint-Germain (até o meio de 2022) e o interesse dos franceses é continuar com a sua estrela no elenco.

 
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Como na França não existe multa rescisória, a negociação se torna ainda menos viável. Existe a possibilidade do jogador entrar com um recurso na FIFA para estipular um preço de 180 milhões de euros (R$ 1,1 bilhão) pela rescisão. No entanto, no cenário atual, é bastante delicado imaginar algum clube investindo essa quantia em um reforço.

Thiago Silva 

Aos 35 anos, o capitão do PSG tem só mais um mês de contrato com o PSG. A FIFA permitiu aos clubes que tiverem em seu elenco jogadores em final de vínculo, a prolongarem os contratos até o término da temporada. No caso do PSG, ainda restam as finais das Copas e a Liga dos Campeões. A reportagem do Esporte Interativo apurou que existe um desejo do clube e do jogador de renovarem o contrato por mais uma temporada.

Marquinhos 

O zagueiro tem seu futuro assegurado em Paris. Ele é o vice-capitão do time e considerado o jogador-chave do projeto do PSG. Em janeiro, renovou seu contrato até 2024.

 
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